segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Pequenos desatinos- I


"Não diga nada de olhos fechados"


Saiu e bateu a porta como fazia todos os dias, era um jeito de dizer que estava descontente com o que tinha sem abrir a boca. Estava descontente não só com seu emprego, com as coisas em sua casa e com seus amigos, faltava-lhe apenas a coragem de gritar para o mundo todo ouvir.

Escolheu um domingo de sol, dia das pessoas saírem às ruas para se distrair e outras coisas, um ótimo dia para passear, péssimo dia pra um escândalo. Escolheu o domingo e a rua mais cheia pra gritar seus desapontamentos. Foi chamado de louco, não era, não ainda, mas como contestar uma grande maioria que sussurra em couro inverdades assistidas.

Mas não se incomodou em ser chamado de louco, já devia ter sido chamado pelas costas de tantas outras coisas que já nem se importava mais. Aquele seria seu grito de desabafo e desejava gritar tantas outras coisas que isso não o incomodaria.

Pessoas e mais pessoas foram se aproximando do homem bem vestido que dizia barbaridades sobre sua própria vida e entre a maioria que dizia que estava louco misturavam-se seguidores religiosos e políticos de qualquer demonstração pública. Não entendiam o que aquele homem fazia contando tantas coisas sobre a sua vida a um bando de estranhos. O que nem ele entendeu depois de tamanho papelão.

Falava de olhos fechados, sem encarar seu público ouvinte, na verdade não falava pra eles, falava para si mesmo só que em voz alta, não era sua culpa se a vida alheia interessava tanto aos ouvidos públicos, pois ele mesmo não pararia a ouvir um tonto qualquer que fosse a chorar suas pitangas pelas ruas.

Quando caiu em si novamente abriu os olhos na esperança de que estivesse tão sozinho como uma folha que é jogada pelo vento, ou que estivesse apenas num sonho. Infelizmente pra ele e comicamente pra dezena de pessoas não era nem um nem outro. Pegou sua maleta que na empolgação de seu discurso deixou cair foi embora e ao chegar em casa bateu a porta novamente, dessa vez com mais força do que quando fazia ao sair, na esperança de que todo o resto do mundo desabasse a partir daquele instante ou que fosse tragado por um buraco fundo provocado pela batida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário