Mico show
É incrível o que a preguiça atrelada à distração e a extrema falta de bom senso faz com as pessoas, mesmo as mais tímidas e parcialmente educadas, como eu. Digo parcialmente educada, por que o trabalho da minha mãe em me educar, diga-se de passagem, foi muito bem feito, mas... as vezes quando eu estou com um pouquinho de preguiça, vergonha, as duas coisas juntas, ou simplesmente distraída, acabo dando mancada.
Então vamos ao mico.
Estou eu arrumando a casa, doida como sempre, com um shorts minúsculo, uma blusinha velha tipo top, (que trech, eu me achando "a" dançarina de axé), e pra variar toda descabelada, com o som ligado numa altura que se um tiroteio começasse eu não escutaria e quanto menos escutaria alguém chamando no portão. E vejam como são as coisas...
Empolgada no refrão de uma música que eu nem me lembro qual era (na verdade me lembro, mas prefiro não contar), resolvi abrir a porta pra dar uma arejada na casa, e foi justamente nessa hora que dei de cara com um vendedor ambulante deste que vendem várias coisas como cobertores, panelas, tapetes, cunhados, primos, sogras... rsrs (brincadeira).
Na hora eu não sabia se puxava o shorts pra baixo pra ele parecer mais cumpridinho (impossível, shortinho de piscina, é tragédia pura), se passava a mão no cabelo que tava todo bagunçado (até porque além de cantar eu dei uma empolgada tava dançando um pouquinho), ou se fingia não ter visto um cara parado feito dois de paus no meu portão e voltava correndo pra dentro batendo a porta na cara do sujeito.
O cara estava parado com um sorrisinho de quem já estava ali a tempo suficiente pra ter me escutado cantar o refrão todo, ou mais da metade da música (o que eu particularmente prefiro acreditar que não aconteceu), ou melhor gritar junto com a música feito doida. O som estava tão alto que eu não escutava uma palavra do que ele dizia, era tipo cinema mudo, com a diferença que ele conseguia me ouvir muito bem.
Eu por motivo algum iria dar as costas para um estranho parado no meu portão só pra abaixar o volume do aparelho de som, então usei a velha técnica da leitura labial, a qual eu ainda não domino hoje e muito menos naquela época, e é assim que a gente passa vergonha.
O cara falava alguma coisa que eu não conseguia entender, e depois de perguntar “que?” duas vezes, achei , melhor fingir que tinha entendido. E usei a lógica, se era vendedor devia estar me oferecendo alguma coisa que eu nem estava interessada. Foi então que disparei:
_ Hoje não, muito obrigada... sorrindo amigável e gentilmente apesar da vergonha que eu já estava sentindo.
Vejam todos, que pessoa educada. Que teria de vergonhoso em agradecer gentilmente o vendedor?
Tudo!
Minha mãe sempre me disse que quando um vendedor oferecesse um produto, o qual eu não estivesse interessada em comprar pra responder, “não obrigada”, (objetiva e educada) e foi isso que eu fiz.
Mas após ter dito as sábias palavras ensinadas por minha mãe, a música que está tocando acaba e o tempo que se dá entre uma faixa e outra foi o suficiente para que o vendedor me respondesse rindo muito da minha cara-de-pau:
_ Nossa, moça... eu só te disse “Bom Dia”, nem ofereci nada ainda! Ta curtindo um som né? Legal...
Puts, que mico!
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